Em um protesto tão discreto quanto barulhento no debate sobre inteligência artificial, Paul McCartney, 83, lançou uma faixa de 2min45seg quase totalmente silenciosa para criticar o uso não autorizado de obras musicais por empresas de tecnologia. A gravação integra o álbum Is This What We Want?, que será lançado em vinil ainda este mês.
A música — irônica e oficialmente batizada de (faixa bônus) — mistura chiado de fita, ruídos esparsos e um fade out demorado. É a primeira gravação inédita do ex-Beatle em cinco anos, produzida entre apresentações de sua atual turnê na América do Norte.
O projeto reúne nomes como Kate Bush, Sam Fender, Hans Zimmer, Pet Shop Boys e Max Richter, todos contribuindo com faixas igualmente silenciosas. A ideia é simbolizar o que artistas enxergam como um “vazio” criado pelo uso de suas obras para treinar modelos de IA sem autorização.
O álbum foi idealizado pelo compositor Ed Newton-Rex, crítico da postura do governo britânico, que, segundo ele, estaria privilegiando empresas americanas de tecnologia. A obra inclui um recado direto: Londres não deve legalizar exceções de copyright que permitam mineração de dados para IA sem consentimento dos criadores.
McCartney já havia expressado preocupação com o avanço da inteligência artificial na música: “Temos que ter cuidado com isso, porque pode simplesmente tomar conta de tudo”, disse.
Do outro lado do debate, o governo britânico lembra que precisa equilibrar os interesses das indústrias criativas — responsáveis por £125 bilhões anuais — e gigantes de tecnologia que prometem investir mais de £30 bilhões no país. Uma nova legislação sobre IA e direitos autorais só deve ser discutida no Parlamento após 2026.
Enquanto isso, Londres mantém acordos com empresas como OpenAI, Google e Anthropic. A nomeação, em setembro, de um consultor que já defendeu que grandes empresas de IA não deveriam ser obrigadas a compensar criadores gerou apreensão no setor.
O clima esquentou ainda mais com declarações de Donald Trump, que defendeu permitir o uso irrestrito de conteúdo protegido por IA, sem entraves regulatórios.
Em resposta ao protesto de McCartney, o governo britânico afirmou que está “priorizando os interesses dos cidadãos e das empresas do Reino Unido” e que trabalha para garantir “proteções robustas” aos criadores, mantendo diálogo com todos os setores.
Silencioso ou não, o recado de McCartney foi ouvido. O resto é chiado — literalmente.