Lembro que, em meados de 2020, o algoritmo do Spotify começou a me bombardear com uma música específica: “Is It Really You?”, do grupo britânico Loathe. Mesmo eu nunca tendo parado para escutar a banda com atenção, a faixa surgia o tempo todo em playlists relacionadas a bandas que eu curtia na época, como Superheaven, Basement e Narrow Head — e não só isso: apareciam covers e regravações aqui e ali com certa frequência. E todo esse background me fez ficar com a pulga atrás da orelha.
Por que, exatamente, aquela canção específica começou a ganhar tanta atenção? Era apenas uma questão musical— ou estavam atuando forças mais complexas: algoritmos que empurram descobertas, redes de bandas que se influenciam mutuamente, timing cultural, ou mesmo uma estratégia de posicionamento artístico?
Cinco anos depois, cá estou eu — um apaixonado fã do Loathe, que tem o álbum …I Let It In and It Took Everything como um dos seus favoritos dos últimos anos — e que finalmente entende os motivos que fazem dessa canção uma das mais memoráveis do metal na década de 2020. Vem comigo!
Motivo 1: Contexto
O primeiro pilar para entender a proporção de Is It Really You? é considerar o cenário em que ela foi lançada. A música é a 9ª faixa do álbum …I Let It In and It Took Everything — aclamado segundo disco do Loathe, considerado o 12º melhor disco de metal de 2020 pela Metal Hammer. O registro apresentou significativas mudanças estéticas na sonoridade em comparação ao antecessor (e igualmente incrível) The Cold Sun (2017).
Afastando-se das convenções do metalcore, o álbum mergulha em territórios muito mais próximos de nichos como shoegaze e dreampop — estilos que, impulsionados pelo TikTok, alcançaram uma popularidade massiva nos últimos anos. Uma matéria excelente de Felipe Ernani, do Tenho Mais Discos Que Amigos, explica por que bandas como Deftones e The Smashing Pumpkins — ambas fortemente influenciadas pelo shoegaze — voltaram a ganhar tanto destaque nas redes de vídeos curtos.
A sonoridade com estética “dreamy”, cheia de ambientações, reverbs, delays e camadas sonoras, tornou-se extremamente popular na internet no início desta década. Mas por que isso acontece? Muito provavelmente por causa da ode à nostalgia que esses sons oferecem. Pesquisas sugerem que a música triste funciona como uma espécie de gatilho para memórias nostálgicas de tempos passados, e revisitar essas lembranças importantes pode de fato melhorar o humor.
Além disso, não é apenas melancolia: quando ouvimos essas músicas, muitos ouvintes relatam vivenciar outras emoções relacionadas, principalmente nostalgia, o que fortalece o senso de conexão social e reduz a ansiedade. Músicas como 1979 do The Smashing Pumpkins e Duvet do Bôa (ambas virais nos últimos anos) são exemplos perfeitos desse clima de doce melancolia e conforto nostálgico.
Motivo 2: Sonoridade que estoura a bolha do metal
O Loathe já mostrava leves flertes com um tipo de som mais etéreo desde The Cold Sun, em faixas como Stigmata e Babylon, mas foi em …I Let It In and It Took Everything que essa característica ganhou ainda mais peso. E Is It Really You? é o ápice desse tipo de sonoridade dentro do álbum.
Essa atmosfera melancolicamente aconchegante marca exatamente o tipo de sonoridade que, como já citado, ganha cada vez mais popularidade na internet. A música, inclusive, chegou a viralizar entre a comunidade shoegaze no TikTok no ano de 2023.
Por esse motivo, temos uma música que realiza uma façanha interessante: dialogar com públicos diversos, algo pouco comum dentro do universo do metal moderno, geralmente mais fechado em seu próprio nicho. Em outras palavras, esse ar de eterealidade torna a faixa facilmente assimilável para ouvintes que normalmente não se aproximariam de uma banda de metal.
Motivo 3: Produção que músicos querem escutar
Especialmente para os nerds, temos alguns pontos relevantes de produção. Produzida pelo próprio Loathe em parceria com George Lever — que também assina a mix — e masterizado por Jens Bogren, Is It Really You? é, para começo de conversa, uma faixa simples na essência. Uma boa composição antes de qualquer coisa. Funcionaria muito bem, por exemplo, em um arranjo apenas de voz e violão. Muito disso se deve à sua natureza melódica, que valoriza e muito a beleza e o contorno da linha vocal.
A canção é uma balada de 4 minutos e 47 segundos, focada na criação de atmosfera e na alternância entre momentos de calmaria e porrada. O cartão de visitas é o característico pad da introdução — cintilante, denso, quase sem ataque — responsável por estabelecer o espaço tridimensional da mix. Ele soa como um colchão etéreo que se mantém durante toda a faixa.
Logo depois, surgem guitarras barítonas encorpadas e graves, mixadas de modo a não sufocar o resto do arranjo. Essa é uma característica marcante de George Lever: os instrumentos pesados têm impacto, mas sem sacrificar a clareza com aquele som embolado que muitas bandas modernas insistem em fazer.
Os efeitos de ambiência — reverbs, delays e vocais distantes — são o temperinho necessário para entregar aquela sensação de nostalgia que citei anteriormente.
Porém, o grande destaque está na construção vocal. A voz começa branda, envolta em reverb, quase sussurrada. No pré-refrão, backing vocals ecoam suavemente por trás dos versos “I knew / It was mine too / And you? / Is it really you?”, preparando o terreno para o clímax: um refrão interpretado com intensidade por Kadeem France.
Motivo 4: Covers produzidos por outras bandas
Outro motivo que evidencia o fenômeno Is It Really You é a quantidade massiva de covers e versões que é possível esbarrar pelas redes sociais. Encontramos arranjos de violão, slowed + reverb, piano e voz, guitarra de 6, 7, 8 cordas… a lista é extensa.
No entanto, o que diferencia essa faixa das demais são os covers realizados por bandas já consolidadas. Não é muito comum — embora devesse ser — que grupos de porte e alcance similares (ou até maiores) façam suas próprias versões. No caso de Is It Really You?, isso aconteceu com duas bandas em especial: Teenage Wrist e Sleep Token.
A versão do Teenage Wrist tem como base uma sonoridade mais voltada para o rock alternativo, com influências revival do grunge noventista que a banda costuma inserir em seus discos. Segundo Marshall Gallagher, vocalista e guitarrista do Teenage Wrist, ele descobriu a música durante a gravação do álbum Earth Is A Black Hole (igualmente sensacional e super recomendado, por sinal) e contou que a faixa “realmente o atingiu”. Tem até um solinho de guitarra cheio de fuzz na versão deles. Ouça aqui.
Já a interpretação do Sleep Token é totalmente diferente, ainda mais intimista, focada apenas no piano e na voz do vocalista Vessel. Na época, a banda ainda não havia explodido com o gigantesco Take Me Back To Eden — álbum que, em outras proporções, teve a faixa The Summoning passando por um fenômeno semelhante ao de Is It Really You?, mas isso é assunto para outro texto — , mas já contava com um alcance substancialmente maior que a do autores originais da canção. A reação do Loathe foi de modéstia, afirmando que se sentiram “humilhados” pela versão dos londrinos. Bobinhos. Ouça aqui.
Motivo 5: Um clássico imediato para os fãs
Por último, mas não menos importante, Is It Really You? é um hino para os fãs de Loathe. Por ter tanta carga emocional envolvida, a música transforma-se em um momento de catarse durante os shows. Sem dúvida, é só ver as reações do público em lives como a do Outbreak 2023: lanternas para cima, mãos balançando, rostos emocionados.
Muito disso vem da parte lírica que, escondida em figuras um pouco mais abstratas, expressa um sentimento que todo mundo já experimentou — do fã ao jovem do TikTok, passando pelo nerd da produção musical: a incerteza. Incerteza de um futuro, de laços, de seus próprios sentimentos embaralhados, que em determinado momento imploram para ser encontrados. Lidar com a dor faz parte do processo. For a while.
Musicão.