Deftones — private music (2025): RESENHA FAIXA A FAIXA

Com título estilizado em letras minúsculas do jeito que a Gen Z gosta, “private music” marca o retorno triunfal do Deftones.

Esses dias eu comentava com um amigo sobre como é legal ver bandas que, em tese, já teriam passado por seu “auge” lançando trabalhos realmente relevantes — sem recorrer a fórmulas requentadas, provando que o reconhecimento que conquistaram nunca foi fruto de lampejos ocasionais de genialidade ou sorte. E o motivo dessa conversa foi justamente o aguardado lançamento mais recente dos gigantes da música alternativa: o Deftones, com o novo álbum private music.

 

Formado por Chino Moreno, Abe Cunningham, Stephen Carpenter, Frank Delgado e Fred Sablan, o quinteto californiano lançou em agosto seu novo álbum com faixas inéditas desde Ohms (2020). Marcando o retorno da parceria com o produtor Nick Raskulinecz — responsável pelos aclamadíssimos Diamond Eyes (2010) e Koi No Yokan (2012) — , o registro oferece um panorama completo do DNA da banda, resgatando elementos de todas as fases da carreira sem soar reciclagem.

 

Contexto

Para entender rapidamente o contexto atual da banda, vale lembrar que os últimos anos foram intensos para o Deftones em termos de impacto cultural e popularidade. O grupo foi “redescoberto” pela Geração Z, que os adotou como uma banda cool — trilha sonora perfeita para a estética melancólica e sensual que essa galera gosta. Podemos atribuir a reaproximação ao boom das redes de vídeos curtos (vulgo TikTok), que devolveu ao Deftones um nível de popularidade que provavelmente não se via desde o primeiro auge, no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, com clássicos absolutos Around the Fur (1997) e White Pony (2000).

 

Essa influência também pode ser vista em outra frente: nas novas gerações de bandas — especialmente nas formadas a partir de 2010. Não é raro esbarrarmos em fóruns no Reddit ou em comentários do YouTube com o que se convencionou chamar de “Deftonescore”: riffs densos em guitarras barítonas ou de oito cordas, synths etéreos, vocais sussurrados e aquela atmosfera allurement tão característica do grupo californiano. Pegando alguns exemplos de cabeça: Thornhill, Loathe, Teenage Wrist, Post Profit, Black Coast… precisei de exatos três segundos para lembrar de todos.

 

No entanto, apesar do boom em termos de popularidade, a discografia recente do Deftones atravessava um período não tão inspirado — após o que muitos consideram o ponto mais fraco da carreira, Gore (2016), e o bom, porém pouco memorável, Ohms (2020). Até que, em agosto deste ano, a banda voltou a mostrar por que influenciou tanta gente — com o excelente private music (sim, estilizado em letras minúsculas do jeitinho que o jovem gosta).

 

private music – Faixa a Faixa

 

O carro-chefe e primeiro single do álbum é my mind is a mountain: uma midtime direta, crua e condensada em menos de três minutos, com tudo que consolidou o Deftones como eles são. Apesar de não apresentar um refrão “oficial” nos moldes convencionais, a faixa reserva uma parte C aos 1:50 que, na primeira vez que ouvi, me fez pensar: “Isso aqui é Deftones sendo Deftones”. Até então centrada em um riff intrincado de apenas uma nota, a música se abre e se expande lindamente, com linhas melódicas cantadas de forma tenra e sobrepostas em múltiplas camadas vocais. Por esse trecho específico se repetir apenas uma vez, fica aquele gostinho de quero mais — felizmente, era só a primeira faixa do álbum.

 

A faixa seguinte, locked club, poderia facilmente ter saído do álbum Diamond Eyes, funcionando como uma sucessora espiritual de Royal. Aqui, Chino canta sobre “pertencer a algo” de maneira altiva, quase em tom de comando. Liricamente, a tônica está nas dinâmicas sociais de pertencimento a grupos, costumes e hierarquias — um tema que ganha ainda mais peso em uma realidade pós-pandêmica, em que a reconexão e o senso de comunidade se tornaram tão urgentes quanto complexos.

 

Sintetizadores à la Depeche Mode no Some Great Reward, seguidos por uma linha de baixo dançante do recém-integrado Fred Sablan, nos introduzem em ecdysis. A faixa apresenta uma dinâmica consideravelmente mais movimentada que as anteriores, construída por riffs com mais notas que o normal no “novo Deftones”, lembrando o que era feito na época do Adrenaline, como em Engine № 9. O título, Ecdysis, refere-se ao processo biológico de muda em artrópodes, quando o exoesqueleto antigo é abandonado e um novo surge, macio e em expansão — uma metáfora perfeita para renovação e transformação.

 

Desde o lançamento do álbum, infinite source vem se tornando definitivamente uma das favoritas dos fãs. Aqui, quem brilha é o baterista Abe Cunningham, que traz um groove com fills muito semelhantes aos do clássico supremo da banda, My Own Summer, por exemplo. Na verdade, a música inteira possui uma energia que evoca o Deftones oldschool, desde o riff de Steph, construído com harmônicos naturais, até o breakdown final, que também remete a Around the Fur.

 

Seguindo, souvenir é a maior faixa do disco, com pouco mais de seis minutos que transitam entre o clima de músicas como Kimdracula (Saturday Night Wrist) e Prayers/Triangles (Gore). Aqui encontramos um dos refrães mais interessantes do álbum, soando intrigante, misterioso e até divino — parafraseando a própria letra. Fechando a música, como cortesia de Mr. Frank Delgado, temos quase três minutos apenas de camadas sobrepostas de synths — do jeitinho que eles ensinaram para o Loathe.

 

cXzé a música mais dramática, sombria e caótica do álbum, além de contar com uma das melhores letras escritas por Chino Moreno. Temos aqui intercalações entre versos cheios de movimento e urgência, com Chino cantando sobre memórias se transformando em um amálgama, e um refrão guiado por um groove tribal de Abe. Ao fim da música, a letra do verso se funde com o instrumental do refrão, proporcionando uma experiência metalinguística interessante, considerando a lírica.

 

A regra é clara: se tem Chino Moreno cantando uma música lowtime com a palavra “wave” em algum momento, cuidado — é tema sensível para corações frágeis. i think about you all the time é uma das baladas mais lindas da banda, na mesma prateleira de pedradas como Entombed (Koi No Yokan) e Sextape (Diamond Eyes). Nos primeiros minutos, Chino canta acompanhado apenas da guitarra clean e de synths, lembrando muito o que era feito em seu antigo projeto, o Team Sleep. Quando a banda entra, o terreno se prepara para um refrão de arrebatar até o coração mais gelado: Riding your wave / Wrapped in your calm / And your arms over my head. Lindo.

 

milk of the madonna é uma banger feita sob medida para ser tocada ao vivo. Segundo single divulgado, a faixa já começa com o impacto de um riff sustentando um acorde estático na melhor escola shoegaze (lembrando também Be Quiet and Drive), somado a uma bateria sólida de Abe e uma linha de baixo cheia de ligados, que convida, no mínimo, a balançar a cabeça. Liricamente, Chino recorre ao seu clássico recurso de usar alegorias abstratas para retratar um cenário complexo, em que fica difícil discernir se está falando sobre sexo, fim do mundo ou imolação — ou todas essas possibilidades ao mesmo tempo.

 

Em cut hands, temos aquele tipo de riff cheio de pausas e abusando de bends na oitava corda, tão característico de Stephen, além de um dos raros momentos no disco em que Chino Moreno recorre a um de seus recursos mais notáveis: o berro. A impressão é que a música é uma irmã mais nova da faixa-título de Diamond Eyes, principalmente no breakdown final — quase uma citação direta ao disco de 2010. Música feita para bater cabeça.

 

~metal dream é aquela famosa faixa que provavelmente ganhará o status de injustiçada nos próximos anos, na mesma linhagem de The Link Is Dead (Ohms) e When Girls Telephone Boys (self-titled). Norteada por mais uma linha de baixo dançante de Sablan, seu principal destaque fica no refrão marcante e dramático, com Chino explorando yodels e uma interpretação bastante introspectiva.

 

O gran finale fica por conta de departing the body. Logo nos primeiros segundos, somos surpreendidos por um Chino cantando de maneira tão diferente que, na primeira audição, cheguei a acreditar se tratar de uma participação especial. Com uma voz grave, impostada e remetendo aos seus ídolos do post-punk, ele interpreta dramaticamente a letra sobre um dedilhado igualmente intenso, até que a música explode em um riff o mais Deftones possível. Som épico, sombrio e denso — uma das melhores faixas de encerramento da discografia.

 

Em retrospecto, temos, no mínimo, um dos álbuns mais sólidos do quinteto de Sacramento. No máximo, o clássico pós-Diamond Eyes que a banda precisava: um material que remete a tudo de melhor que o Deftones fez no passado, sem perder de vista o futuro e a reinvenção.

 

Por fim, fico feliz que a nova geração — que não havia nascido durante a era White Pony (me incluo aqui, inclusive) — possa testemunhar, em tempo real, o que é o Deftones em um de seus auges criativos.

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