Algum tempo atrás, a Rockstage Brasil fez uma matéria sobre as novas bandas de rock do Noroeste dos EUA — com destaque para Seattle, berço do grunge (clique aqui pra conferir). Entre tantos nomes legais, um chamou nossa atenção: Cameron Biscarret e seu projeto The Holy Loyal. Agora é hora de mergulhar um pouco mais fundo na história desse grande músico.

O começo de tudo
Cameron Biscarret pegou no primeiro violão aos seis anos e nunca mais soltou. O repertório inicial incluía Beatles, Neil Young e Robert Johnson. Apenas três anos depois, já estava tocando em clubes e festivais, sem medo de se apresentar onde houvesse espaço.
“Algo estava me chamando, e passei a vida toda correndo atrás disso. Agora estou aqui…”, resume Cameron.
Suas influências são diversas e nada óbvias: The Grays, Jellyfish, Queens of the Stone Age, Wu-Tang Clan, Tears for Fears, Rihanna, Teenage Wrist, Sunny Day Real Estate, Avett Brothers e muitos outros. “Qualquer coisa que faça você querer balançar e se divertir é um bom momento pra mim.”, completa Cameron.
O primeiro EP: Willow
Em 2024, Cameron lançou o EP de estreia do The Holy Loyal, Willow. O trabalho chamou a atenção pela produção e pelas composições, ganhando espaço em matérias sobre a cena atual de Seattle. Confira a faixa “Drinking Poison”.
Willow é um disco profundamente pessoal, que gira em torno de overdoses acidentais, extremos de euforia e desespero e a busca por verdade em meio aos escombros da vida. É, segundo Cameron, um trabalho reflexivo e ao mesmo tempo o primeiro passo de quem finalmente decide mudar de rumo. “Às vezes, a única forma de saber quem está do seu lado é quando você não tem nada além de quem você é e das palavras no seu vocabulário”, afirma.
Novo single: “One More Time”
Em Agosto de 2025, Cameron apresentou o bom single “One More Time”, que mostra um cuidado especial na captura das guitarras. Confira abaixo:
Para a gravação, ele usou uma Esquire ‘56 ligada a um Vox Superbeetle (V1141) e um Peavey Classic 30, com um pedal Octonaut Hyperdrive na frente — truque que aprendeu com Brent Bergholm. A produção e mixagem ficaram a cargo de Jimmy Naron, parceiro de longa data: “Ele faz tudo soar ótimo”, diz Cameron.
O próximo EP: desertos e bandeiras vermelhas
O novo trabalho — ainda sem título divulgado — nasceu de uma temporada intensa no deserto, entre Chandler (AZ) e outras regiões áridas. “O deserto é um lugar interessante. Ele te coloca no chão, queira você ou não. Sua sobrevivência vira ‘sobrevivência de verdade’ se você conseguir aguentar.”
Ao contrário de Willow, o próximo EP será mais rápido, direto e não-linear, com letras que funcionam como avisos curtos e bandeiras vermelhas. Cameron descreve o material como fruto de “cruzar meus próprios limites, acabar no inferno de outra pessoa, ver paisagens lindíssimas e viver desastres caóticos para equilibrar”.
A pergunta que permeia o disco é: “O que foi aquilo e como nunca mais fazemos de novo?”.
Todas as imagens e artes do ciclo desse álbum foram capturadas pelo próprio Cameron durante esse período, cada uma representando uma luta diferente.
The Holy Loyal ao vivo
O The Holy Loyal é o projeto pessoal de Cameron, mas nos palcos ele conta com músicos convidados que dão vida às canções. Para ele, cada apresentação é um templo. Já passou por casas icônicas como o El Corazon (antigo Off Ramp) e o Alma Mater em Tacoma, além de shows no Arizona. “Cada show é um lembrete do que significa estar vivo, respirando e com um propósito.”
Cameron já dividiu palco com nomes como CW Stoneking e até participou de apresentações inusitadas, como tocar com Wee Man.
Seattle: entre passado e presente
Cameron enxerga a atual cena de Seattle com certo ceticismo: “O palco de hoje foi pavimentado pelos grandes óbvios — Soundgarden, Alice In Chains, Pearl Jam, Nirvana — mas o que vejo agora se parece mais com um ‘pré-grunge’ em crise. Há traços mínimos das influências dos anos 90. Me lembra mais o fim do grunge, por volta de 95/96, do que a era explosiva. O cenário está… muito morto agora.”
Mesmo dentro deste cenário, Cameron faz questão de citar nomes que ele considera promissores:
“Asterhouse me vem logo à cabeça. Uma mistura absolutamente incrível de irreverência sarcástica com uma honestidade de partir o peito. São alguns dos caras mais legais que conheci nesse meio, e realmente merecem todo sucesso que tiverem. Eu poderia passar a entrevista inteira falando sobre esses símbolos sexuais, mas basta ouvir ‘Boom Boom Boom’ pra entender…”
Ele também destaca outras bandas que fazem parte de sua cena e universo musical: Punish The Scribes, Hiram B Freedom, A Dozen Fiascos, Charlie Drown e Ghostpets.
“Punish The Scribes é uma força monstruosa por si só, e uma grande influência pra mim — se você prestar atenção vai perceber. Eu devo uma vida de gratidão a Tristan McNabb pelo tanto que aprendi com ele, e pela amizade que temos. Ele é meu doce canalha favorito.”
Sobre o A Dozen Fiascos, Cameron vai ainda mais fundo:
“É a banda do meu irmão de outra mãe, Jimmy Naron, que sempre me inspira a ultrapassar limites sonoros e quebrar regras — rindo da própria ideia de que essas regras existam. Jimmy também é autoprodutor (você pode ouvi-lo na bateria em “One More Time”) e é um mestre em qualquer instrumento que pega. É brilhante, cara. Quando eu crescer, quero escrever músicas como o A Dozen Fiascos!”
“Mais do que apenas citar nomes, Cameron deixa claro que se sente parte de uma cena em movimento, que carrega a herança do grunge e, ao mesmo tempo, abre espaço para novas interpretações. E é exatamente aí que o The Holy Loyal se posiciona: entre a reverência ao passado e a coragem de criar algo novo. Se o Noroeste dos EUA já foi berço de uma revolução musical, projetos como o de Cameron Biscarret mostram que o espírito continua vivo — e preparado para surpreender outra geração.”
Quem venha o próximo capítulo…
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