Dallas Green e os benefícios de desacelerar: 20 anos de Sometimes, primeiro álbum do City and Colour

Sometimes, primeiro álbum do projeto encabeçado por Dallas Green, City and Colour, completa duas décadas em 2025.

O ato de desacelerar é subestimado. Em tempos de superestímulos e dopamina barata, a rotina frenética e a pressão por produtividade deixam pouco espaço para o respiro. Há 20 anos, em meio às turnês caóticas de sua até então banda principal, o cantor, compositor e guitarrista canadense Dallas Green encontrou esse momento de desacelerar e criou o City and Colour, lançando seu primeiro álbum, Sometimes.

 

Era 2005. Enquanto a banda canadense Alexisonfire dominava a cena post-hardcore com a extensa (e intensa) turnê de divulgação do disco Watch Out! — em shows conhecidos pela visceralidade dos riffs de guitarra ferozmente agressivos e pelos berros. Energia lá no alto, sem descanso —, o guitarrista e vocalista de apoio Dallas Green fazia, nas cidades por onde passava, pequenas apresentações acústicas e intimistas.

Sozinho, voz e violão, o cantor e compositor apresentava bonitas canções de forte influência folk que começaram a circular em gravações e nas redes da época, criando uma base de fãs própria. Essa foi a gênese do álbum Sometimes, primeiro disco do City and Colour e projeto que representou a virada de chave na carreira de Dallas.

 

No dia 1º de novembro de 2025 comemoramos os 20 anos desse registro, que nasceu com um propósito despretensioso: reunir as canções que Dallas vinha compondo e apresentando nesses shows paralelos, mas que não se alinhavam à sonoridade de sua banda principal. Para batizar o projeto, surgiu o nome City (Dallas) and Colour (Green).

 

Com 45 minutos de duração e 10 faixas, Sometimes não precisa de muito para discursar. O disco reúne canções memoráveis que ainda hoje fazem parte dos repertórios do projeto — que, com o tempo, ganhou novas proporções, tornando-se a principal atividade de Dallas Green e alcançando públicos que o Alexisonfire dificilmente tocaria.

 

A sonoridade do álbum é bucólica — perfeita para ouvir em viagens, na estrada ou à beira de uma fogueira. A estrela do disco é Dallas: seu violão folk de cordas de aço e, principalmente, sua voz, que combina potência e um timbre doce, aveludado — uma característica que já se destacava no próprio Alexisonfire, contrastando com os berros do vocalista principal, George Pettit. Exemplos dessa dualidade não faltam, como em It Was Fear of Myself That Made Me Odd e Side Walk When She Walks, ambas do álbum Watch Out!

 

A produção simples, assinada pelo próprio Dallas e Julius Butty, reforça esse clima idílico. Há pianos e sintetizadores pontuais, que soam poucas notas em momentos precisos, e guitarras limpas inseridas de forma estratégica, conduzindo melodias sutis que complementam o protagonismo do violão de Dallas.

 

Algumas canções ganharam, posteriormente, arranjos mais “eletrificados” para as apresentações ao vivo. Não posso deixar de mencionar esse vídeo específico de Hello, I’m in Delaware, minha música favorita do álbum (e uma das favoritas da vida). Mesmo com toda a crueza e imagem amadora, a execução é tão linda e sensível que chega a doer. Pedindo licença para uma curiosidade pessoalmente mórbida, é a música que eu gostaria que me acompanhasse no dia em que eu meter o pé deste plano — espero que daqui a um bom tempo.

 

Liricamente, trata-se de um trabalho confessional. Praticamente todo o álbum — com exceção de Comin’ Home — foi composto em fases anteriores da vida de Dallas, como uma forma de escape, incluindo períodos de sua adolescência. Temas como a saudade do lar (Comin’ Home), os arrependimentos após o fim de um relacionamento (Like Knives) e a solidão (Sam Malone) dão ao disco um tom profundamente pessoal que norteou os demais trabalhos do projeto.

 

 

O pós Sometimes é história. O que começou como uma válvula de escape, um projeto secundário, se tornou o plano principal de Dallas Green. Hoje, o City and Colour, agora com uma banda completa em palco, é um sucesso consolidado, especialmente no cenário da música indie, lotando casas por onde passa — incluindo três passagens pelo Brasil: 2015, 2016 e 2024.

 

E esse caminho alternativo só foi possível porque, há 20 anos, Dallas decidiu desacelerar e explorar novos ares com Sometimes. É o caos, pelo menos por um tempo, cedendo lugar à calmaria e abrindo perspectivas até então ocultas pelo véu da euforia.

 

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